projetáveis/ projectables

da série trem de lembranças

caixa de madeira, lanterna, durex, instalação sonora e fotografias 35mm em diapositivo

dimensões variáveis

ibeu projetaveis   novissimos 2

 

 

Gosto muito de lembrar do que ainda pode ser.

Como a bailarina da caixinha de música, giro, no mesmo lugar, alagada, afogada.

Parece mentira, mas há mais ou menos oito meses não pára de chover no Rio.

Por quê nunca fui feliz como naquela fotografia?

havia antes, ocupado muitos sítios e casas, mas sabia-se frustrada, porque impossível de habitar todos os homens.

Acho que ali ainda acreditava que quando finalmente parasse de chover no Rio, você me buscaria em teu barquinho de papel.

(Sempre choveu em nossas vidas.) E tu quase caíste na água quando o barquinho bateu no píer. Te senti na ponta dos meus dedos. Agarrada.

Não parece que sempre vivemos assim? Presos um ao outro pela ponta dos dedos?

aquele mar cheio de luz amarela, Trópico alagado. Aconteceu um blecaute seguido de silvos altos. Eram golfinhos que se aproximavam, se aproveitando do escuro, golfinhos que falam – me disseram que sentiam a sua falta. Você tinha sido criada por golfinhos. Escutei e de alguma forma compreendi aquela língua mágica, molhada, que te descrevia, te inventava.

Eu tive certeza ali que sempre estaríamos de mãos dadas, mesmo se saíssemos correndo em direções opostas.

Feito mágica atravessaríamos as tormentas deixando para trás os pesadelos, mas a verdade é que a gente nunca sabe em qual curva dentro do peito do outro é que o coração fica mais frouxo. Deixei passar o que estava de passagem. Todas as palavras são cartas de amor. Um contra-senso tão nosso.

tentou vestir outros corpos muitas vezes ainda, mas seu tempo já havia passado, e, vestida de abandonada, fez-se ao chão, e deixou-se escorrer pelas tábuas do piso, esvaindo-se porta afora.

dizem que mudou de calçada algumas vezes na busca vã de encontrar um corpo ainda-não-contaminado no qual pudesse habitar, mas que, cansada de seus insucessos, resolveu mudar definitivamente de planeta.

parece que foi avistada pela voyager 1, mas dela se afastou rapidamente, pois ali não cabia também.

deixou-se então, ser sugada por um buraco negro, e desapareceu.

talvez, desambição reapareça num outro tempo, por enquanto, segue viagem, sem deixar rastros.

as vezes uma despedida só acontece se você se despir.

Mas, como a bailarina da caixinha de música, giro, no mesmo lugar, alagada, afogada.

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